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O vinho no Brasil, preso em sua própria armadilha

O “enochato” é o sujeito que entende – ou diz entender – de vinhos e que acaba impressionando...

... e constrangendo os circunstantes.
Recentemente, o colunista de gastronomia de Carta Capital, Márcio Alemão, escreveu uma coluna sobre os "enochatos". O "enochato" é o sujeito que entende - ou diz entender - de vinhos e que, com seus procedimentos de avaliação e degustação da bebida, acaba impressionando e constrangendo os circunstantes. Resultado: ele inibe os demais de escolherem e beberem vinho despreocupadamente, temerosos de cometerem alguma gafe. No fim das contas, acabam optando por uma cerveja ou refrigerante, para não correrem riscos de censura.
Boa parcela da tentativa de difusão do vinho entre os brasileiros nos últimos 10 anos esteve calcada no estímulo à ritualização em torno da bebida, que fez proliferar os cursos de degustação e as confrarias. Até pelo fato de o vinho ser uma bebida menos comum no país, aproveitou-se para revesti-lo de vários significados e regras, sugerindo que somente um preparo técnico apurado estaria à altura de tamanha complexidade. Da ritualização para o esnobismo foi um pulo: entender de vinhos, ou dizer-se entendedor, tornou-se um pequeno símbolo de status, conduzindo ao surgimento dos tais "enochatos".
Sabe-se que em outros países, como Itália, França ou mesmo Argentina, convivem harmoniosamente o ritual e o trivial: conservam-se os espaços voltados à apreciação técnica do vinho, sem, contudo, que se deixe de tomá-lo cotidianamente, alheio às etiquetas. Mas, por aqui, fez-se questão de conferir à bebida uma aura de sofisticação capaz de tornar seu consumo, antes de um prazer, um atributo distintivo, um emblema pessoal de requinte. Criaram-se, assim, as condições que por um lado conduziram a um interesse pelo vinho, mas, por outro, travaram sua expansão a partir de um determinado ponto.
Armadilha insolúvel para produtores e comerciantes da bebida? Nem tanto. Com o tempo, novos produtos e hábitos tomarão o lugar do vinho, e a vigilância dos "enochatos" cairá em desuso. Moral da história: hábitos e modas vão e vêm, e os significados atribuídos a produtos e serviços mudam com o tempo. Chegará o dia em que o solo brasileiro estará fértil para que indústria e comércio vinícola estimulem um consumo mais descontraído e orientado unicamente pelo prazer. Longe da mira dos "enochatos", será a hora de aproveitar a oportunidade.

 

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