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Casas Bahia: um pouco de preguiça, outro tanto de clichês

Saída da varejista do Rio Grande do Sul continua mal explicada - em todos os sentidos

Duas coisas me chamaram a atenção neste episódio do fechamento das lojas das Casas Bahia no Rio Grande do Sul.

O primeiro diz respeito à inoperância - para não dizer preguiça - das editorias de economia dos jornais locais, incapazes de apurar informações sobre o imbróglio Casas Bahia-Secretaria da Fazenda. A maior varejista do país sai do estado após ser multada em R$ 50 milhões pelo Fisco local - e tudo ao que o leitor tem acesso são notas oficiais de ambas as partes, nas quais não se prestam maiores informações em nome do "sigilo" inerente à operações desse tipo. E nada de um repórter local obter declarações em off de integrantes do governo, da empresa ou da concorrência para lançar luz sobre um episódio muitíssimo mal explicado.

O segundo aspecto refere-se às explicações de prateleira oferecidas pelos analistas para o fracasso da varejista no estado. A suposta falta de "sotaque" gaúcho teria determinado os maus resultados dos paulistas no RS. Como se o consumidor de baixa renda, especialmente de grandes centros urbanos, fosse se importar com a origem de uma loja e esquecer produto, marca, preço e condições de pagamento. Ou como se localização, tamanho de loja, número de funcionários e mix de produtos não fizesse a menor diferença para o resultado de uma operação complexa como a de bens duráveis.

Ok, reconheço que, no interior do estado, a origem das Casas Bahia pode ter sido prejudicial. Geralmente, comunidades do interior são muito pouco abertas a forasteiros, sejam eles de onde forem.

Mas numa capital como Porto Alegre, convenhamos, é pouco plausível imaginar que este fator tenha sido decisivo. Os supermercados da cidade são quase todos pertencentes a um varejista norte-americano, e antes pertenciam a um grupo português. A classe média alta continua a preferir o gaúcho Zaffari, mas isso não impede o bom desempenho do Wal Mart - ou do francês Carrefour - na cidade.

Ninguém ouviu falar de intenções da francesa Leroy Merlin de abandonar a cidade, ou da paulistana Iguatemi fazer o mesmo. Alguém já viu o McDonald's de Porto Alegre cogitando oferecer churrasco e chimarrão? Se supermercados, lojas de material de construção, shoppings e lanchonetes - para não falar do irmão das Casas Bahia, o Ponto Frio - vingaram no estado dos tais "consumidores diferentes", por que uma loja de eletroeletrônicos não vingaria? Por que o consumidor local seria tão diferente para comprar aparelho de som e geladeira mas igualzinho aos outros na hora de escolher azulejos, mantimentos e lanches?

Saldo do episódio, além dos 400 empregos perdidos: jornalistas pecando pela preguiça e analistas resvalando no clichê. Ruim em todos os sentidos.

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